terça-feira, 22 de novembro de 2016

A esperança vem dos pobres

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Imagem de wildesbrito.blogspot.com.br
A busca espiritual é da natureza humana e, cada um em seus ofícios não é especialista pelo conhecimento espiritual. Normalmente entre o conhecimento dos antigos, encontramos as suas mensagens para nós, o que é por si só, incrível. Tendo em vista que esses antigos viveram e morreram há milhares de anos, deixando inscrições para aqueles que ainda nasceriam num futuro distante de suas realidades.

Nisso, temos informações não apenas religiosas, mas do cotidiano e de suas tentativas em formular uma sociedade com base na justiça e na fraternidade, bem como os que se enveredavam pelo caminho dos interesses de poucos, com suas teses de que somente alguns teriam o direito divino ou benemérito de ter privilégios, nos quais enfrentavam os interesses populares, redefinindo os conceitos da justiça.

A carência nos dias atuais é quem traduza, não apenas o texto, mas a mensagem que os antigos nos deixaram, a fim de não cairmos na propaganda daqueles que sempre se opuseram à justiça social. Tal influência é relevante, tendo em vista as terras americanas receberem toda uma bagagem política, social, econômica, cultural, e religiosa da Europa, compilada e formatada do início da Idade Moderna, os finais do século XV da Era Comum.

Assim, a Igreja Cristã, detentora do conhecimento antigo a respeito da justiça, inclina-se em suas crises ritualísticas e ideologias religiosas, com seus devidos cenários espirituais, deixando em segundo plano a essência do que os antigos, nossos ancestrais, deixaram para nós. E isso, somado aos contextos político-econômicos europeus, que mais tarde se polariza numa versão mais despojada na consolidação do país Estados Unidos, fazendo com que as nações do sul recebam suas crenças, convicções, modelos socioeconômicos e tudo mais, nos mais belos formatos, temperados com tradições religiosas e interpretações que defendem as primeiras teses.

A resposta espiritual às questões atuais não responde aos anseios das pessoas, que esperam dos que se propuseram a estudar as mensagens de nossos ancestrais e, que esses estudiosos, que se autodenominam líderes, fossem os portadores da antiga essência da justiça e, verdadeiramente fossem líderes na luta pela sociedade idealizada pelos antigos, nossos ancestrais, os quais viveram e até morreram para que um dia, os humanos do futuro, nós, contemplássemos essa sociedade fundamentada na justiça, ou morrêssemos lutando por ela.

Porém, não desanimemos, pois Jesus, a personificação da própria justiça, não veio entre os oficiais, ocupando posições de poder, seja político ou religioso, econômico ou militar, mas sim, do interior de seu país, em meio dos pobres. Pela história, aqueles que se diziam seus seguidores, fizeram guerras, condenaram pessoas, causaram mal. Enquanto os que são verdadeiramente seguidores de Jesus, são os que defendem a sua essência, que é a justiça, a paz, o amor, a assistência social, o direito ao trabalho e ganhos dignos por ele, como também o direito à terra e sua redistribuição.


Referência

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

domingo, 30 de outubro de 2016

Diabo x Lúcifer

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Extrato do Precônio Pascal (Praeconium Paschale - Exsultet), na qual percebemos a utilização da palavra latina "lucifer". Fonte: PapalMusic 

Comumente vemos uma associação entre o ser maligno denominado diabo e o nome Lúcifer. Porém, não há uma fundamentação bíblica para isso. Também é necessário se ter cuidado com a espiritualização de textos bíblicos, pois torna-se necessária uma busca pela interpretação considerando os contextos. Podemos tomar uma história bíblica e propor uma analogia com algo de nosso cotidiano a fim de termos uma aplicação prática em nossas vidas, mas ao transformarmos a analogia em verdade, terminamos por mudar o sentido da mensagem, ou seja, perdemos totalmente a essência.

São Lúcifer (cieliparalleli.com)
No texto bíblico no capítulo 14 do livro de Isaías, encontramos um relato a respeito de um rei babilônico conquistador, com uma característica soberba, até pela comparação com a estrela da manhã, que acreditamos ser nosso planeta vizinho Vênus. Obviamente um complexo de grandeza, um tanto exagerado. Na tradução latina, conhecida como Vulgata, amplamente utilizada pela Igreja Católica Apostólica Romana até tempos modernos, há a palavra lucifer, porém como substantivo, na qual podemos traduzir como portador da luz. Não há nenhuma evidência de referência ao que conhecemos como diabo.

Claro que conheço defensores dessa tese, de que lucifer é o Lúcifer, por sua vez, um nome bonito do diabo e, que o diabo é o anjo caído, por sua vez, o inimigo de Deus, como também o inimigo da Humanidade. E conhecendo os argumentos deles, falemos então a respeito do capítulo 28 do livro de Ezequiel, que dentro do contexto, expõe-se a respeito de outro rei soberbo, se referindo à Tiro, uma cidade assíria.


Igreja de São Lúcifer em Cagliari, Itália
(Imagem de web.tiscali.it)
Já no livro de Apocalipse, capítulo 22, Jesus é a estrela da manhã. Uma grande exaltação, o que pode ter inspirado na região do Mediterrâneo, na Antiguidade, ser comum pessoas com o nome Lúcifer, já que seu significado em Latim é portador da luz, um nome bonito. Inclusive existiu um bispo cristão, que veio a ser reconhecido como santo pela Igreja Católica Apostólica Romana, o São Lúcifer e, também, no sul da Itália, há a Igreja de São Lúcifer.

Obviamente, devido a essa confusão entorno do nome Lúcifer, alguém aparecer com esse nome pode despertar uma certa inquietação, mas é bom saber a origem do nome e, que não foi diabólica.






Referências:

Bible Hub. Versão Hebraica. Disponível em [http://biblehub.com/]. Data de acesso: 30 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 30 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Vulgata. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 30 Out 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Inspiração religiosa na sétima arte

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Tendo em vista apenas buscar curiosidades, demonstrando a origem da inspiração cinematográfica pelos textos antigos e, aqui em especial, da Bíblia, preparei um breve artigo. Muitas vezes nos deparamos com histórias e, que nem imaginamos de como chegaram até nós. É evidente que roteiristas são inspirados pelas suas percepções de mundo, retratando suas visões. Dentre os quais, muitos são ocidentalizados e com a visão bíblica-judaica-cristã, mesmo que não sejam crentes, mas por todo o mundo em que vivem desde suas infâncias.

No entanto, encontramos também influências de outras crenças, o que nos faz refletir que crenças diferentes ao modelo "ocidental" talvez estejam contando a mesma história por ângulos diferentes. Talvez os mitos sejam fragmentos de uma realidade perdida. Talvez sejam apenas mitos, mas podemos nos divertir com a habilidade dos roteiristas e de todo esse mundo artístico, ao menos aos que apreciam filmes.

Imagem de oarquivo.com.br
Cubo Borg de Star Trek, uma ficção referente ao futuro, em relação à nossa percepção de tempo.

"A cidade era quadrangular, de comprimento e largura iguais. Ele mediu a cidade com a vara; tinha dois mil e duzentos quilômetros de comprimento; a largura e a altura eram iguais ao comprimento" (Bíblia, NVI, Apocalipse 21:16).






Imagem de industriacriativa.espm.br/
Sabres de Luz de Star Wars, uma ficção referente ao passado, em relação à nossa percepção de tempo. 

"Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida" (Bíblia, NVI, Gênesis 3:24).







Cartaz do filme Avatar
(imagem de fandomfollowing.com)
Avatar tem personagens com semelhança a Krishna, conforme crenças hindus, na qual Krishna é um avatar do Deus Vishnu, que conforme a tradição hindu, avatar é manifestação corporal de um ser, entendendo-se como encarnação.







Representação de Krishna
(imagem de refutandooateismo.wordpress.com)
O filme demonstra o que seu nome representa, que é a manifestação corporal dos alienígenas (no caso, os humanos) nos corpos semelhantes dos próprios nativos na lua fictícia na qual se passa a história.














Claramente não se resume apenas aos exemplos curiosos que mencionei, mas que fique uma amostra para entretenimento e reflexão.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Frase


Movimento Rastafári

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Hailé Selassié (Ras Tafari)
(imagem de pronounceitright.com)
Dentre os sons que escutamos no Brasil, há também o Reggae, que ganhou força pelas suas mensagens de paz e de denúncia aos sistemas de opressão. Um ritmo que teria nascido na Jamaica, possui suas raízes nas batidas africanas. No entanto, muito além da música, há um contexto político, cultural, religioso, social e, podemos dizer, até histórico por detrás do Reggae, incorporado no Movimento Rastafári.

Como já se esperaria, há esteriótipos a respeito dessa cultura rastafári, que para muitos, trata-se do afrodescendente americano, com a pele escura, cabelos trançados e Reggae. Porém, há um esclarecimento e umas curiosidades quando investigamos as origens.

A África é a terra natal dos pais dos afrodescendentes, sendo evidente uma identificação. O que surge no Jamaica é a expressão do que já estava acontecendo nas Américas Central e do Sul, a denúncia do sistema de opressão aos mais pobres. Isso foi sendo construído com ritmos caribenhos, porém resgatando as raízes africanas, com letras de paz e justiça, terminando no que conhecemos como Reggae.


Bob Marley (imagem de burbury.com.br)
Bob Marley, dentre outros músicos jamaicanos, teve muito de sua inspiração no Imperador Hailé Selassié (1892-1975), governante do Império Etíope de 1930 a 1974. Dentre muitos títulos, Selassié foi conhecido como Ras Tafari, na qual pela língua armaica, oficial da Etiópia, de origem semítica, significa "Príncipe da Paz", por sua vez um título do próprio Jesus Cristo, conforme o relato bíblico em Isaías 9:6. Além disso, o imperador se proclamava descendente do Rei Salomão, remetendo a textos bíblicos tanto em Reis como em Crônicas, na qual a Rainha de Sabá teria visitado o próprio Rei Salomão e, conforme o mito etíope, haveria um filho dos dois, na qual Ras Tafari é descendente.

Acredita-se que o antigo Reino de Sabá se localizava ao sul da península arábica, atual Yêmen, sendo que próximo da li, do outro lado do Mar Vermelho está a Etiópia. Curiosamente muitos africanos foram identificados como geneticamente judeus, inclusive desses dois países citados, tendo muitos deles emigrado para o atual Israel.


Imagem de guiadoestudante.abril.com.br

Pelo mito etíope, Hailé Selassié, o Ras Tafari, é considerado a encarnação de Jah, por sua vez, uma contração de Javeh ou Javé, que em hebraico é Yahweh, como descrito no texto bíblico em Êxodo 6:2, normalmente traduzido como Senhor, pois é a referência ao próprio Deus. Assim, pelos seguidores de Ras Tafari, ele é a encarnação do próprio Deus.

Ras Tafari, enquanto imperador da Etiópia ganha notoriedade pelos seus discursos, na qual denuncia as injustiças, o racismo e a guerra, como declara a formação de uma sociedade com os pilares na paz e na justiça. Um trecho de seu discurso numa conferência da Organização das Nações Unidas em 1963, serve de inspiração para Bob Marley compor "War" em 1976:

"Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que o brilho dos olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar as raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada.

E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal" (ADEJUMOBI apud SELASSIÉ, 2007. p.154-155; tradução do autor).

O Movimento Rastafári acompanha os movimentos latino americanos no que se refere às lutas de classes, combate à pobreza e à opressão proporcionada pelo sistema neoliberal e, apesar de termos uma ascensão desses movimentos na segunda metade do século XX, vemos pela história uma série de movimentos similares, na qual muitos com uma proximidade ao aspecto religioso. Na prática, crenças a parte, a essência da luta por uma sociedade alicerçada na paz, fraternidade e justiça, vem ecoando desde a Antiguidade.

Ouça War (Guerra) de Bob Marley:





Referências

ADEJUMOBI, Saheed A. The History of Ethiopia. Westport: Greenwood Publishing Group, 2007, 219p.

AIRES. Lidiane. Conheça a história das comunidades judaicas negras da África. Guia do Estudante. Aventuras na História. [http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/conheca-historia-comunidades-judaicas-negras-africa-696519.shtml]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bible Hub. Disponível em [http://biblehub.com/interlinear/exodus/6-2.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: Data de Acesso: 17 Out 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

FERNANDES, Cláudio. Rastafarianismo. História do Mundo. Disponível em [http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/rastafarianismo.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nietzsche sobre o Cristianismo

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


Caricatura de Nietzsche por Vianno Rheim, extraída de
br.pinterest.com
O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) se refere a moral negadora da vida como se apresenta o Cristianismo, conforme sua visão, pautada na experiência história manifestada pelos que aparentemente representam o Cristianismo, por se tratar esta linha religiosa como tem se apresentado, mais valorizadora da interpretação do que se acredita ser o certo, ou seja, o foco doutrinário, do que dar-se o valor ao ser humano. Ele vai mais fundo, também criticando que religiosos e, nesse caso, referindo-se ao Cristianismo, os quais criavam ou interpretavam uma moral a favorecer grupos de poder em detrimento de um, grupo oprimido, o que reforça a sua tese que tal moral nega a vida ao grupo menos favorecido, na qual a moral é com rigor para eles, porém favorável aos opressores.

Embora a crítica de Nietzsche seja plausível, considerando o pensamento do teólogo uruguaio Juan Luis Segundo, quanto ao testemunho de muitos cristãos não demonstrarem a verdadeira face de Deus, por sua vez, o verdadeiro Cristianismo, acredito que o alvo das críticas não foi exatamente correto, tendo em vista que não se trata de Cristianismo ou não Cristianismo, mas da forma que o próprio Cristianismo tem sido conduzido pelos séculos não ter sido coerente com a própria proposta do fundador, o próprio Jesus Cristo.

Mesmo assim, a crítica de Nietzsche leva-nos a pensar que a forma precisa ser avaliada e constantemente discutida, de forma a não termos o absolutismo opressor, alienante e escravizador, que leva à negação da vida e da liberdade.

Referências

MATOS, Givaldo Mauro. ÉTICA CRISTÃ. Dourados: UNIGRAN, 2015. 134p.

Nietzsche, Friedrich. O Anticristo. Disponível em [http://infojur.ufsc.br/aires/arquivos/anticristo.pdf]. Data de acesso: 6 Out 2016.


Segundo, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré. 3ª Edição. São Paulo: Paulus Editora,  2997. 672p,

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A busca pela Israel histórica

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


Imagem extraída de exame.abril.com.br


Airton José da Silva descreve através do texto “A História de Israel na Pesquisa Atual” essencialmente a ruptura do consenso a respeito da história de Israel, existente até a década de 1970, o qual toma como base pensamentos de alguns pesquisadores, assim como os seminários ocorridos entre 1996 e 2000, denominado Seminário Europeu sobre Metodologia Histórica, com participação de um grupo multinacional de pesquisadores.

Silva comenta a respeito do estudo da História de Israel, mediante essa ruptura, não ser mais tratada da mesma forma, porém, levando-se em conta novas possibilidades, como tratando da “região bíblica” a partir de novos olhares, acrescentado os povos vizinhos, ou mesmo tratando como história da Síria/ Palestina.

A abordagem retrata o intuito dos pesquisadores em não depender da Bíblia para tratar a respeito da história do povo israelita, procurando se desvincular dos termos “geografia bíblica”, “arqueologia bíblica” e, assim por diante. E nesse ponto, encontra-se muita dificuldade, em decorrência de um tempo distante e grande ausência de material contemporâneo aos momentos históricos em questão.

Contudo, surgem então as especulações a respeito de pontos chaves na história bíblica, como: os patriarcas, sua existência e quando; a monarquia de Davi e Salomão, uma realidade ou ficção; exílio, diáspora ou deportação; pós-exílio, sendo uma reocupação de Canaã, ou o povo que já estava lá, que progrediu e “inventou” toda a história.

Silva menciona algumas vezes a respeito de valorizar ou não as narrativas. O que considero um ponto importante, pois não vejo a ciência apenas com comprovações através da experiência, mas também a consideração do relato e de seu possível relator. Sendo evidente um pensamento mais abrangente, o qual, nesse caso, tratando-se de história, a arqueologia (não necessariamente bíblica), as narrativas israelitas e dos povos vizinhos, além de novos métodos de análise histórica, ou seja, como sugere Silva, uma multiplicidade de métodos.

Coloco ainda, minha corroboração especificamente na importância da investigação histórica e o que Silva deixa transparecer a respeito de não deixar de lado as narrativas, como a aplicação da multiplicidade de métodos para tal investigação da História de Israel, ou História Sírio/ Palestina. Em soma a isso, os textos produzidos do Antigo Testamento, não contemporâneos aos eventos, possuem já influência idiomática, como cultural de demais nações, tendo em vista a diversidade de povos na região correspondente e, indo mais além, até mesmo influências religiosas, percebendo que o povo israelita foi se tornando monoteísta. Por fim, coloco também que as narrativas bíblicas possuem características pré-filosóficas, o que deve ser levado em conta ao utilizá-las em 



Referências

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 31 Jul 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

SILVA, Airton José da. A História de Israel na Pesquisa Atual. In: CRISTOFANI, José Roberto. História de Israel. Dourados: UNIGRAN, 2013.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Negro ou preto?

Marcelo Gil da Silva

Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado




Nabby Clifford, conhecido como o embaixador do Reggae no Brasil fala a respeito de negro ou preto...




Para ouvir Nabby Clifford, logo abaixo está uma canção, "London, London", composta por Caetano Veloso em 1971, no exílio em Londres, com uma letra marcante que retrata a solidão, que mesmo tendo amigos, também exilados, como Gilberto Gil, sentia-se solitário num país estranho.






quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Independência do Brasil

Marcelo Gil da Silva

Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


Independência ou Morte - óleo sobre tela de Pedro Américo, 1888. Imagem do Museu Paulista (São Paulo-SP)
A independência do Brasil foi conquistada ao custo de uma guerra sangrenta que durou aproximadamente vinte um meses, marcada por intrigas, violência e diferentes posicionamentos políticos. A conturbada reviravolta dos finais do século XVIII e início do século XIX, com os ideais revolucionários franceses, o balanço entre renovação romana e os ensaios democráticos americanos, determinaram um cenário complexo à família real luso brasileira, com a missão um tanto circunstancial de levar à Europa e, manchada com sangue, a novidade da monarquia constitucional, abolindo o absolutismo e influenciando as próprias constituições republicanas.

Pouco comentado nas ruas brasileiras, como pouco explorado o tema "Independência do Brasil", pelo ensino tradicional, é uma história intrigante e determinante, não apenas para entender o cenário brasileiro atual, mas nos dá um entendimento a respeito do cenário político de todo mundo ocidental.

No entanto, não podemos apenas tratar limites territoriais e quem governa tais limites, pois os elos ideológicos brasileiros estão conectados a seus antigos elos europeus, como os novos elos estadunidenses, determinando o modo de vida brasileiro, como uma extensão do modo de vida europeu com elementos do modo de vida dos Estados Unidos, ou a extensão do modo de vida dos Estados Unidos com lembranças do europeu.

E no campo ideológico, que se estende ao religioso, dentre todo um aspecto cultural, ainda é necessário uma independência do Brasil. Por mais que tenhamos desenvolvido uma cultura mesclada com a nativa pré-colombiana, além da africana e, nessa mescla, elementos religiosos, terminamos por importar as religiões do hemisfério norte e, com elas, toda sua construção teológica. Assim, quando pensamos em teologia, a temos em geral, importada ou iniciada a partir dos elos pré-independência.

Assim, percebe-se que não se trata apenas a dependência teológica, ideológica e etc. no Brasil, mas em toda a América Latina, a qual dentre seus ensaios tem como mais determinante a elaboração de uma nova teologia, a Teologia da Libertação, por volta dos anos 1970, que vem a contrapor os objetivos nortistas de divisão de classes e exploração do trabalho da maioria. Tais objetivos sob a suposta bandeira da liberdade e oportunidades, com ideologias político-religiosas estáveis do tipo status quo (deixa como está).

De qualquer forma, ainda torna-se necessária a conquista da independência não apenas do Brasil, mas da humanidade, dos grupos de poder acumuladores de quase todos os recursos disponíveis a nossa espécie. Toda vaidade trata-se do lado que acredita que somente alguns tenham sua linhagem continuada e do lado que acredita na continuidade de toda a humanidade.   



Referências

Bíblia Online. Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 21 Ago 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 21 Ago 2016. 

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

GOMES, Laurentino. 1822. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2010.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Um breve olhar literário da Bíblia

Marcelo Gil da Silva

Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


A Bíblia de Gutenberg é o primeiro livro impresso substancial no Ocidente com o tipo móvel de metal móvel, século XV.
(Universidade do Texas, Austin)
Originalmente os livros que compõem a Bíblia foram escritos em hebraico, aramaico e grego e, não apenas a língua, mas toda uma forma dos escritores e do povo a quem os texto foram dirigidos originalmente, exige um estudo minucioso para um melhor entendimento da mensagem.

O hebraico é uma língua pictórica, onde expressa-se de uma forma emocional. Uma língua pessoal capaz de dramatizar a narrativa dos acontecimentos. Já o aramaico é uma língua que chegou a ser a língua geral do Oriente Próximo e, por ser amplamente popular e falada em Israel no período do cativeiro, as letras hebraicas passaram a ser usadas com uma escrita mais próxima da aramaica, ficando mais quadradas. O grego, utilizado no Segundo Testamento, foi uma língua amplamente difundida no mundo conhecido na época. Por ser uma língua “universal”, o alcance dos textos foi bem abrangente.

Cada língua (hebraico, aramaico e grego) teve sua importância em sua época e na cultura dos povos que tiveram contato com ela, por isso eu não colocaria uma língua superior às outras. No entanto, vale mencionar o sentimento (”feeling”) da língua hebraica. O estudo científico é fundamental na construção da fé, pois tratando-se de textos antigos, que atravessaram diferentes períodos históricos e culturais, torna-se necessário métodos científicos para buscar entender como as pessoas contemporâneas dos textos entendiam os mesmos.

Com uma melhor compreensão de como se entendia os textos bíblicos em suas épocas, pode-se construir uma fé com base nos próprios. Descartar o estudo científico da Bíblia é descartar o alicerce da fé, pois para construí-la [a fé] é necessária uma compreensão sólida, ou seja, não superficial da própria Bíblia. Por fim, o estudo científico da Bíblia nos auxilia no conhecimento das escrituras, buscando uma melhor compreensão e interpretação dos textos sagrados.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A força geradora da economia

Marcelo Gil da Silva

Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


O Sermão na Montanha. Óleo sobre tela de Jan The Elder Brueghel
Imagem de niceartgallery.com
O sal na Antiguidade e, especialmente no período de Jesus, era um dos itens mais valiosos, inclusive os soldados romanos (exército que ocupava a Palestina nesse tempo) eram pagos com sal, daí o termo salário. Sal era para as pessoas contemporâneas de Jesus, sinônimo de capital.

Jesus é a personificação da justiça, da fraternidade e, de todo o projeto de Deus anunciado no Antigo Testamento e reafirmado no Novo Testamento, de construção de uma sociedade justa e fraterna. Porém, sempre houve uma tensão entre ricos e pobres, na qual os de situação mais cômoda, terminavam por provocar ou colaborar com a opressão aos mais pobres. O lucro dos comerciantes, como o capital, era algo distante dos que proporcionavam essas riquezas numa sociedade desigual.

Jesus encoraja no capitulo 5 do livro de Mateus, a classe trabalhadora e, especificamente em Mateus 5:13, ao chamá-los de sal da terra, é como dizer: Vocês são o capital da economia (lembrando ser uma sociedade com base agropecuária, ou seja, da terra). Enfim, uma preciosidade e fundamental para mover a economia, o que chamamos hoje, capital humano e, que estes, os trabalhadores é que são o verdadeiro capital, ou o sal, como naqueles tempos de Jesus. Se o sal tornar-se insípido, ou seja, ser misturado com areia, por exemplo, não se pode mais aproveitá-lo. Se o os trabalhadores, que são o capital humano, se corromperem, de nada mais prestarão, corruptos, serão lançados fora e pisados pelos homens, como percebe-se em Mateus 5:13.

Extraindo a interpretação a partir do texto ou a partir de sistemas, sempre é necessário uma visão dentro do contexto, considerando além do idioma, a quem o texto é dirigido, como também todo o cenário cultural, socioeconômico e político, bem como qualquer peça que contribua para remontar o cenário da qual viviam os receptores da mensagem. Outro grande desafio é a interligação desse cenário com o atual, como também o entendimento da atualidade na composição de diversos cenários.

Apesar dos desafios, a construção de uma sociedade com pilares de justiça e fraternidade sempre foram anseios humanos, desde a Antiguidade. A menção à divindade era comum aos antigos, enquanto aos contemporâneos fala-se do esforço humano. No entanto, a convergência refere-se a essa busca, tanto religiosa quanto científica, que leve a Humanidade à imortalidade. Tal busca possui essa tensão, entre opressores e oprimidos, sendo que dentre os oprimidos sempre há os que se levantam contra a opressão. No caso do Cristianismo, a verdade é um levante pacífico e de amor.



Referências

Bíblia Online. Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 21 Ago 2016.

Bíblia Online. Grego. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 21 Ago 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 21 Ago 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

BRUEGHEL, Jan The Elder. The Sermon on the Mount.  NICE ART GALLERY. Disponível em [https://www.niceartgallery.com/Jan-The-Elder-Brueghel/The-Sermon-on-the-Mount.html] Data de acesso: 21 Ago 2016.

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Jesus é a encarnação da essência bíblica

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


Papiro Madalena: possivelmente os primeiros fragmentos conhecidos do Novo Testamento (Universidade de Oxford)
"No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus" (João 1:1).  Esta é a tradução mais comum para Língua Portuguesa, do original bíblico em grego. No entanto, em traduções na Língua Inglesa, como traduções mais recentes na própria Língua Portuguesa, temos a tradução mais próxima do sentido original, em que Logus, normalmente traduzido como Verbo, significa Palavra, a qual é a tradução direta do termo em grego.

Um detalhe pequeno, ou seja, uma palavra, mas que leva ou não a uma melhor compreensão da mensagem. Porém, não é algo a ser ignorado, pensando que assim segue-se o caminho mais simples, mas uma consideração importante para resgatar o sentido que a mensagem tinha aos contemporâneos de quando ela foi escrita, ou seja, o real contexto, para que dessa forma, tenhamos uma lição nos dias atuais, para ser ou não aplicada.

Temos então mais desafios pela frente, como o desafio do teólogo de nosso dias, que é construir a ponte da origem da mensagem, de uma outra época, outro povo, outro espaço. Um portal que vai além de uma máquina do tempo, mas todo um mundo diferente. O que nos remete a um novo olhar à bibliologia, uma bibliologia contemporânea, que é uma das peças na construção do portal. Um desafio aos religiosos, que se fundamentam em textos antigos para a continuidade de suas doutrinas. Aos crentes, especificamente do Cristianismo, tais textos antigos são sagrados e, vencer o desafio está associado a duas coisas, que é o estudo e o talento.

O estudo vai além do texto sagrado, pois torna-se necessário a utilização do conhecimento humano de forma interdisciplinar para uma melhor compreensão do objeto central, comumente os próprios textos sagrados. O talento é a capacidade de interpretar os diferentes contextos dentro de um contexto, que para os crentes é a unção divina, para outros, é o simples talento, mas o resultado é o mesmo, sem a paixão no que está se dedicando, nenhum bom entendimento terá e nenhum ensinamento fluirá. No entanto, sem o conhecimento, o talento, a paixão, a unção divina, serão como roupas guardadas. Porém o conhecimento sem a sabedoria é como estar nu.

O Antigo Testamento bíblico reflete o plano divino de uma sociedade humana com o fundamento na justiça e na fraternidade, pela qual torna-se, conforme o entendimento dos antigos e crentes desses textos, a Palavra de Deus, ou seja, para tais, a Palavra, que num sentido mais amplo, a Verdade. Uma referência ao Deus apresentado na Bíblia: "A retidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente" (Salmos 89:14). Tal verdade nesse sentido de sociedade com o fundamento na justiça e na fraternidade é compatível com muitas religiões em diferentes épocas e lugares, que não seria presunção afirmar ser a Verdade.

Jesus Cristo é a personificação da Verdade apontada no Antigo Testamento, sendo assim são elaborados novos textos que compõem o Novo Testamento, no intuito de demonstrar que seguindo os passos dele, perseguindo seus ensinamentos, estaremos nos aproximando dessa Verdade, ou a Palavra, ou o Verbo. Pois ele, Jesus Cristo, é a encarnação da Verdade, da própria Palavra de Deus.

Assim, a partir do original grego do primeiro versículo do primeiro capítulo do livro de João, da Bíblia, traduz-se: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e Deus era a Palavra. Uma fusão da verdade descrita no Antigo Testamento, reafirmada no Novo Testamento, com o próprio Deus. E mais adiante no texto bíblico vem a afirmação de ser essa Verdade, ou seja, o próprio Deus, Jesus Cristo. "Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito vindo do Pai, cheio de graça e de verdade" (João 1:14).


Referências

Bíblia Online. Almeida Corrigida e Revisada Fiel. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 14 Ago 2016.

Bíblia Online. Grego. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 14 Ago 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 14 Ago 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

Magdalen College. The Magdalen Papyrus P64: possibly the earliest known fragments of the New Testament (or of a book!). In: Treasure of the Month. Oxford: University of Oxford, 2013.  Disponível em [http://www.magd.ox.ac.uk/libraries-and-archives/treasure-of-the-month/news/magdalen-papyrus]. Data de acesso: 16 Ago 2016.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A misteriosa origem da justiça

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Código de Hamurabi (Museu do Louvre - Paris, França)
Como chegamos aos dias atuais com as convenções sociais, que definem nós humanos como seres construtores de uma civilização fundada na inteligência? Certamente há uma espécie de "quebra cabeça" na qual não conhecemos a imagem resultante, nem temos todas as peças. No entanto, nossa inteligência preenche as lacunas como imagens "pixeladas".

Recorrendo às peças que temos, com uma visão interdisciplinar, podemos construir parte da imagem, como um legado de cada geração humana, para que gerações futuras tenham os subsídios que desvendem as respostas de quem verdadeiramente somos nós, qual a nossa origem e, para qual caminho seguiremos.

Não podemos nos satisfazer com uma explicação biológica, pois transcendemos a existência biológica. E mesmo considerando nossa origem biológica, temos uma estrutura codificada, o ácido desoxirribonucleico (ADN em português), popularmente conhecido pela sigla em Inglês, DNA, na qual ainda é um código misterioso nos dias atuais.

Compreendendo então que uma vez que temos humanos andando pela Terra, nossos ancestrais, organizam-se em famílias, depois as tribos, formando cidades e nações. Quanto mais juntos, vem a necessidade de convenções que permitam a convivência entre indivíduos, por sua vez, a tolerância e construção de leis que unam os diferentes, pelas suas individualidades e suas diversas necessidades.

Código Lipit-Ishtar
(Museu do Louvre - Paris, França)
A compilação pelos antigos, de um código legal, não pode ser a origem do próprio código, pois os codificadores precedem o próprio. Não se faz a lei do que não é necessário, mas pela necessidade, se legisla, de forma que temos que pressupor uma situação de conveniência prática anterior às primeiras escritas de qualquer legislação. Através da arqueologia, temos descoberto, especialmente na região mesopotâmica, leis cravadas em rochas, com datações entorno dos séculos XVIII e XVII AEC (Antes da Era Comum), porém, podemos atribuir que anteriormente ao entalhe em rocha, já era natural a utilização dos códigos ali dispostos. Possivelmente, a necessidade de escrever o código, veio a uniformizá-lo para que houvesse a justiça, ao menos a justiça codificada, aos seguidores do mesmo código.

No entanto, não vejo apenas uma escrita de valor temporal, mas o fato dos antigos terem entalhado seus códigos em rocha, há o efeito prático de serem lidos milhares de anos depois. Porém, apesar de serem redescobertos através da arqueologia há menos de duzentos anos, suas essências, permanecerão entalhadas na alma humana através dos séculos. Em geral tais códigos antigos sustentam a base de toda a legislação ocidental, que culmina na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948 EC), na tentativa da disseminação da justiça, que embora muitos se levantaram para defender os preceitos da justiça, que vai além da relações comerciais, da contenção da violência, do direito individual e patrimonial, mas de proteção ao pobre, à viúva e ao estrangeiro.

Pelos séculos, personagens surgiram, vivendo e morrendo, oras escrevendo, oras defendendo o que já foi escrito. Denunciando e se opondo aos poderes, os quais muitas vezes, defendiam a justiça a um grupo supostamente eleito e, na tentativa de eliminar a busca de justiça à Humanidade, tais personagens eram mortos, mas suas ideologias nunca morreram, pois estas quando pareciam que tinham desaparecido, retornavam às sociedades humanas.
Código de Ur- Nammu
(Museu Arqueológico de Estambul)
Imagem de lampuzo.wordpress.com

Eis então o grande desafio da teologia bíblica, que não se reduza à Bíblia, com o início de sua compilação por volta do século VI AEC, embora tenha um conteúdo antecessor, remontando outros antigos códigos, como o babilônico de Hamurabi (XVIII e XVII AEC). A ideia sempre foi prevalecer a ideia, não importando o contexto de onde a ideia renasceria e, a ideia sempre foi a justiça entre os humanos, que pudesse transcender aos não humanos, como toda a biosfera.

Ainda fica difícil determinar a origem dos códigos antigos, tendo em vista ter-se primeiramente uma sociedade experimentando, ou tentando uma convivência que inspira o código. Os antigos não apenas deixaram a ideia de origem divina, como entalharam a origem da justiça ser divina, de forma que muito tempo depois, nós da sociedade desse tempo, tivéssemos acesso à ideologia da justiça, com base na proteção ao indivíduo e tolerância às diferenças. Ainda hoje, temos os que se opõem à ideologia de justiça dos nossos ancestrais, mas não importa se enterram a rocha entalhada, ou se morrem os seus defensores, de uma forma misteriosa, a ideologia ressurge e, possivelmente assim será até que a justiça prevaleça de uma vez por todas em nossa sociedade humana.



Referências

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 7 Ago 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

Biblioteca Virtual de Direitos Humanos. Código de Hamurabi. São Paulo: Universidade de São Paulo. Disponível em [http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-anteriores-%C3%A0-cria%C3%A7%C3%A3o-da-Sociedade-das-Na%C3%A7%C3%B5es-at%C3%A9-1919/codigo-de-hamurabi.html]. Data de Acesso: 7 Ago 2016.

Código de Hamurabi. Disponível em [http://www.culturabrasil.org/zip/hamurabi.pdf]. Data de acesso: 7 Ago 2016.

COULANGES, Fustel de. A CIDADE ANTIGA. Trad. Jean Melville. São Paulo: MartinClaret, 2007. 421p.

Musée du Louvre. Código de Hamurabi. Disponível em [http://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/law-code-hammurabi-king-babylon]. Data de acesso: 7 Ago 2016.    

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Nacionalidade e família humana

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



 Imagem extraída de sermaesemsermao.blogspot.com.br
Na Antiguidade havia um conceito um tanto diferente a respeito da nacionalidade, na qual entendemos nos dias de hoje, ao menos no mundo ocidental. No entanto, compreender a forma que os antigos conceitualizavam nação, família, país, governo, povo, etc., leva-nos a entender melhor o mundo atual, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos internacionais, refletindo no cotidiano de cada ser humano e, até mesmo dos não humanos, nos quais, estão sujeitos ao primeiro.

Não é possível menosprezar os conflitos internos numa nação, como também as tensões externas, levando às disputas armadas, como comerciais, sendo que há aqueles que se alimentam dessas tensões e conflitos, como a própria indústria armamentista, os boicotes e embargos comerciais, como uma série de ações, que por fim, terminam por determinar como as pessoas viverão, em todos os aspectos.

Os antigos não iniciaram uma civilização de forma automática. Vencer as adversidades naturais sempre foi um desafio para a Humanidade, que vivendo numa pequena família, possuía mais chances de vida. Analisando as origens ocidentais, através  da origem indo-europeia, com a família crescendo, a ordem social vai se transformando, mas também é inevitável os encontros entre diferentes famílias, sendo que assim, estas formam as fratrias, que por sua vez, as tribos, então, as cidades. "Mas, assim como várias fratrias se haviam unido em uma tribo, várias tribos puderam associar-se entre si, com a condição de que o culto de cada uma fosse respeitado. No dia em que se fez essa aliança, a cidade começou a existir" (COULANGES, 2007, p. 138).

As cidades, sendo as próprias reuniões dos núcleos sociais, determinados famílias, compõem o conceito de nação. De certo modo, uma nação era composta de pessoas aparentadas, ou mesmo, compartilhando dos mesmos ideais, como uma adoção, na qual assim, a nação é uma reunião de famílias que formam uma só grande família. Portanto, o pertencimento à uma nação é pertencer a uma família e não a um território. Percebemos muitas vezes, nos códigos antigos, a menção ao estrangeiro, pois viver num determinado território nacional não o tornava pertencente àquela nação. Normalmente não se fazia menção ao estrangeiro, ou seja, não participante da família nacional, pois simplesmente não gozava de um direito. No entanto, no Código Deuteronômico, temos sua menção de forma inédita. "Eles deverão julgar com justiça não só o israelita, mas também o estrangeiro. Isto é verdadeiramente revolucionário, porque nos códigos legais do antigo Oriente Médio, o estrangeiro geralmente não gozava da proteção da lei e, muito menos, era colocado sob uma lei de assistência e promoção social" (KRAMER, 2010, p.254, 255).

A nação Israel é uma composição de judeus e, conforme sua legislação, "um judeu é uma pessoa que nasceu de mãe judia, ou que se converteu ao Judaísmo, e que não faça parte de outra religião” (TZVI SVAJNBRUM, 2012). Há exemplos diversos em diferentes países, na qual ser cidadão, ou seja, nacional, não basta nascer em território nacional, mas pertencer de fato à nação, ou seja, à família nacional. Porém, num sentido mais amplo, podemos contemplar a Humanidade além das divisões nacionais, tendo em vista o entendimento da ascendência de todo indivíduo humano remetendo à uma origem comum, como seres biológicos e através das pesquisas a respeito do DNA humano, temos a ciência de uma origem comum de nossa espécie, colocando assim, todos os humanos em grau de parentesco. "Se você rastrear o DNA mitocondrial de herança materna dentro de nossas células, todos os seres humanos têm teoricamente um ancestral comum" (SLEZAC, 2014, tradução do autor).

Também é comum no discurso do líder da Igreja Católica Apostólica Romana, Papa Francisco o termo "família humana", o que claramente é compatível com o legítimo discurso cristão bíblico, a respeito da origem da Humanidade, remetendo ao ancestral comum, conforme o relato no livro bíblico de Gênesis. "É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença" (FRANCISCO, 2015, p.17).

Tendo em vista estarmos tão próximos e ao mesmo tempo tão divididos, podemos acreditar que somos então pertencentes a uma grande família humana, sendo todos nós primos, mesmo que de um grau elevado, ou irmãos, como em antigas culturas que muitas vezes não se fazia a distinção entre primos e irmãos, no que diz respeito a fraternidade. Se recordarmos que somos uma mesma família, ainda que divididas em nações e, divididos de muitas formas, haverá então a tolerância, o perdão, o amor e, não mais haverá guerras. A bandeira branca não apenas é neutra, pois não contém a cor de nenhuma nação, mas é o branco a soma de todas as cores.


Referências

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 31 Jul 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

COULANGES, Fustel de. A CIDADE ANTIGA. Trad. Jean Melville. São Paulo: MartinClaret, 2007. 421p.

FRANCISCO. LAUDATO SI'. Libreria Editrice Vaticana. Vaticano: Santa Sé, 2015, 88p. Disponível em: [http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf]. Acesso em: 31 Jul 2016.

KRAMER, Pedro. ESTRANGEIRO, ÓRFÃO E VIÚVA NA LEGISLAÇÃO DEUTERONÔMICA: Programa de uma sociedade igualitária, de solidariedade e de partilha. In: Revista Interdisciplinar da Mobilidade Humana, Brasília, Ano XVIII, Nº 35, p.247-264, Jul./Dez. 2010. Disponível em: [http://csem.org.br/remhu/index.php/remhu/article/download/238/221]. Data de acesso: 31 Jul 2016.

SLEZAC, Michael. Found: closest link to Eve, our universal ancestor. New Scientist. 2014. Acesso em: [https://www.newscientist.com/article/mg22429904.500-found-closest-link-to-eve-our-universal-ancestor/?cmpid=RSS%2525257cNSNS%2525257c2012-GLOBAL%2525257conline-news#.VDaVqfldVUU]. Data de acesso: 31 Jul 2016.

Tzvi Savajnbrum. Acesso em [http://lawadv.com/pt-br/os-vistos-de-entrada]. Disponível em: 31 Jul 2016.