domingo, 30 de outubro de 2016

Diabo x Lúcifer

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Extrato do Precônio Pascal (Praeconium Paschale - Exsultet), na qual percebemos a utilização da palavra latina "lucifer". Fonte: PapalMusic 

Comumente vemos uma associação entre o ser maligno denominado diabo e o nome Lúcifer. Porém, não há uma fundamentação bíblica para isso. Também é necessário se ter cuidado com a espiritualização de textos bíblicos, pois torna-se necessária uma busca pela interpretação considerando os contextos. Podemos tomar uma história bíblica e propor uma analogia com algo de nosso cotidiano a fim de termos uma aplicação prática em nossas vidas, mas ao transformarmos a analogia em verdade, terminamos por mudar o sentido da mensagem, ou seja, perdemos totalmente a essência.

São Lúcifer (cieliparalleli.com)
No texto bíblico no capítulo 14 do livro de Isaías, encontramos um relato a respeito de um rei babilônico conquistador, com uma característica soberba, até pela comparação com a estrela da manhã, que acreditamos ser nosso planeta vizinho Vênus. Obviamente um complexo de grandeza, um tanto exagerado. Na tradução latina, conhecida como Vulgata, amplamente utilizada pela Igreja Católica Apostólica Romana até tempos modernos, há a palavra lucifer, porém como substantivo, na qual podemos traduzir como portador da luz. Não há nenhuma evidência de referência ao que conhecemos como diabo.

Claro que conheço defensores dessa tese, de que lucifer é o Lúcifer, por sua vez, um nome bonito do diabo e, que o diabo é o anjo caído, por sua vez, o inimigo de Deus, como também o inimigo da Humanidade. E conhecendo os argumentos deles, falemos então a respeito do capítulo 28 do livro de Ezequiel, que dentro do contexto, expõe-se a respeito de outro rei soberbo, se referindo à Tiro, uma cidade assíria.


Igreja de São Lúcifer em Cagliari, Itália
(Imagem de web.tiscali.it)
Já no livro de Apocalipse, capítulo 22, Jesus é a estrela da manhã. Uma grande exaltação, o que pode ter inspirado na região do Mediterrâneo, na Antiguidade, ser comum pessoas com o nome Lúcifer, já que seu significado em Latim é portador da luz, um nome bonito. Inclusive existiu um bispo cristão, que veio a ser reconhecido como santo pela Igreja Católica Apostólica Romana, o São Lúcifer e, também, no sul da Itália, há a Igreja de São Lúcifer.

Obviamente, devido a essa confusão entorno do nome Lúcifer, alguém aparecer com esse nome pode despertar uma certa inquietação, mas é bom saber a origem do nome e, que não foi diabólica.






Referências:

Bible Hub. Versão Hebraica. Disponível em [http://biblehub.com/]. Data de acesso: 30 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 30 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Vulgata. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: 30 Out 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Inspiração religiosa na sétima arte

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Tendo em vista apenas buscar curiosidades, demonstrando a origem da inspiração cinematográfica pelos textos antigos e, aqui em especial, da Bíblia, preparei um breve artigo. Muitas vezes nos deparamos com histórias e, que nem imaginamos de como chegaram até nós. É evidente que roteiristas são inspirados pelas suas percepções de mundo, retratando suas visões. Dentre os quais, muitos são ocidentalizados e com a visão bíblica-judaica-cristã, mesmo que não sejam crentes, mas por todo o mundo em que vivem desde suas infâncias.

No entanto, encontramos também influências de outras crenças, o que nos faz refletir que crenças diferentes ao modelo "ocidental" talvez estejam contando a mesma história por ângulos diferentes. Talvez os mitos sejam fragmentos de uma realidade perdida. Talvez sejam apenas mitos, mas podemos nos divertir com a habilidade dos roteiristas e de todo esse mundo artístico, ao menos aos que apreciam filmes.

Imagem de oarquivo.com.br
Cubo Borg de Star Trek, uma ficção referente ao futuro, em relação à nossa percepção de tempo.

"A cidade era quadrangular, de comprimento e largura iguais. Ele mediu a cidade com a vara; tinha dois mil e duzentos quilômetros de comprimento; a largura e a altura eram iguais ao comprimento" (Bíblia, NVI, Apocalipse 21:16).






Imagem de industriacriativa.espm.br/
Sabres de Luz de Star Wars, uma ficção referente ao passado, em relação à nossa percepção de tempo. 

"Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida" (Bíblia, NVI, Gênesis 3:24).







Cartaz do filme Avatar
(imagem de fandomfollowing.com)
Avatar tem personagens com semelhança a Krishna, conforme crenças hindus, na qual Krishna é um avatar do Deus Vishnu, que conforme a tradição hindu, avatar é manifestação corporal de um ser, entendendo-se como encarnação.







Representação de Krishna
(imagem de refutandooateismo.wordpress.com)
O filme demonstra o que seu nome representa, que é a manifestação corporal dos alienígenas (no caso, os humanos) nos corpos semelhantes dos próprios nativos na lua fictícia na qual se passa a história.














Claramente não se resume apenas aos exemplos curiosos que mencionei, mas que fique uma amostra para entretenimento e reflexão.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Frase


Movimento Rastafári

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Hailé Selassié (Ras Tafari)
(imagem de pronounceitright.com)
Dentre os sons que escutamos no Brasil, há também o Reggae, que ganhou força pelas suas mensagens de paz e de denúncia aos sistemas de opressão. Um ritmo que teria nascido na Jamaica, possui suas raízes nas batidas africanas. No entanto, muito além da música, há um contexto político, cultural, religioso, social e, podemos dizer, até histórico por detrás do Reggae, incorporado no Movimento Rastafári.

Como já se esperaria, há esteriótipos a respeito dessa cultura rastafári, que para muitos, trata-se do afrodescendente americano, com a pele escura, cabelos trançados e Reggae. Porém, há um esclarecimento e umas curiosidades quando investigamos as origens.

A África é a terra natal dos pais dos afrodescendentes, sendo evidente uma identificação. O que surge no Jamaica é a expressão do que já estava acontecendo nas Américas Central e do Sul, a denúncia do sistema de opressão aos mais pobres. Isso foi sendo construído com ritmos caribenhos, porém resgatando as raízes africanas, com letras de paz e justiça, terminando no que conhecemos como Reggae.


Bob Marley (imagem de burbury.com.br)
Bob Marley, dentre outros músicos jamaicanos, teve muito de sua inspiração no Imperador Hailé Selassié (1892-1975), governante do Império Etíope de 1930 a 1974. Dentre muitos títulos, Selassié foi conhecido como Ras Tafari, na qual pela língua armaica, oficial da Etiópia, de origem semítica, significa "Príncipe da Paz", por sua vez um título do próprio Jesus Cristo, conforme o relato bíblico em Isaías 9:6. Além disso, o imperador se proclamava descendente do Rei Salomão, remetendo a textos bíblicos tanto em Reis como em Crônicas, na qual a Rainha de Sabá teria visitado o próprio Rei Salomão e, conforme o mito etíope, haveria um filho dos dois, na qual Ras Tafari é descendente.

Acredita-se que o antigo Reino de Sabá se localizava ao sul da península arábica, atual Yêmen, sendo que próximo da li, do outro lado do Mar Vermelho está a Etiópia. Curiosamente muitos africanos foram identificados como geneticamente judeus, inclusive desses dois países citados, tendo muitos deles emigrado para o atual Israel.


Imagem de guiadoestudante.abril.com.br

Pelo mito etíope, Hailé Selassié, o Ras Tafari, é considerado a encarnação de Jah, por sua vez, uma contração de Javeh ou Javé, que em hebraico é Yahweh, como descrito no texto bíblico em Êxodo 6:2, normalmente traduzido como Senhor, pois é a referência ao próprio Deus. Assim, pelos seguidores de Ras Tafari, ele é a encarnação do próprio Deus.

Ras Tafari, enquanto imperador da Etiópia ganha notoriedade pelos seus discursos, na qual denuncia as injustiças, o racismo e a guerra, como declara a formação de uma sociedade com os pilares na paz e na justiça. Um trecho de seu discurso numa conferência da Organização das Nações Unidas em 1963, serve de inspiração para Bob Marley compor "War" em 1976:

"Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que o brilho dos olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar as raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada.

E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal" (ADEJUMOBI apud SELASSIÉ, 2007. p.154-155; tradução do autor).

O Movimento Rastafári acompanha os movimentos latino americanos no que se refere às lutas de classes, combate à pobreza e à opressão proporcionada pelo sistema neoliberal e, apesar de termos uma ascensão desses movimentos na segunda metade do século XX, vemos pela história uma série de movimentos similares, na qual muitos com uma proximidade ao aspecto religioso. Na prática, crenças a parte, a essência da luta por uma sociedade alicerçada na paz, fraternidade e justiça, vem ecoando desde a Antiguidade.

Ouça War (Guerra) de Bob Marley:





Referências

ADEJUMOBI, Saheed A. The History of Ethiopia. Westport: Greenwood Publishing Group, 2007, 219p.

AIRES. Lidiane. Conheça a história das comunidades judaicas negras da África. Guia do Estudante. Aventuras na História. [http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/conheca-historia-comunidades-judaicas-negras-africa-696519.shtml]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bible Hub. Disponível em [http://biblehub.com/interlinear/exodus/6-2.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: Data de Acesso: 17 Out 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

FERNANDES, Cláudio. Rastafarianismo. História do Mundo. Disponível em [http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/rastafarianismo.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Nietzsche sobre o Cristianismo

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado


Caricatura de Nietzsche por Vianno Rheim, extraída de
br.pinterest.com
O filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) se refere a moral negadora da vida como se apresenta o Cristianismo, conforme sua visão, pautada na experiência história manifestada pelos que aparentemente representam o Cristianismo, por se tratar esta linha religiosa como tem se apresentado, mais valorizadora da interpretação do que se acredita ser o certo, ou seja, o foco doutrinário, do que dar-se o valor ao ser humano. Ele vai mais fundo, também criticando que religiosos e, nesse caso, referindo-se ao Cristianismo, os quais criavam ou interpretavam uma moral a favorecer grupos de poder em detrimento de um, grupo oprimido, o que reforça a sua tese que tal moral nega a vida ao grupo menos favorecido, na qual a moral é com rigor para eles, porém favorável aos opressores.

Embora a crítica de Nietzsche seja plausível, considerando o pensamento do teólogo uruguaio Juan Luis Segundo, quanto ao testemunho de muitos cristãos não demonstrarem a verdadeira face de Deus, por sua vez, o verdadeiro Cristianismo, acredito que o alvo das críticas não foi exatamente correto, tendo em vista que não se trata de Cristianismo ou não Cristianismo, mas da forma que o próprio Cristianismo tem sido conduzido pelos séculos não ter sido coerente com a própria proposta do fundador, o próprio Jesus Cristo.

Mesmo assim, a crítica de Nietzsche leva-nos a pensar que a forma precisa ser avaliada e constantemente discutida, de forma a não termos o absolutismo opressor, alienante e escravizador, que leva à negação da vida e da liberdade.

Referências

MATOS, Givaldo Mauro. ÉTICA CRISTÃ. Dourados: UNIGRAN, 2015. 134p.

Nietzsche, Friedrich. O Anticristo. Disponível em [http://infojur.ufsc.br/aires/arquivos/anticristo.pdf]. Data de acesso: 6 Out 2016.


Segundo, Juan Luis. A História Perdida e Recuperada de Jesus de Nazaré. 3ª Edição. São Paulo: Paulus Editora,  2997. 672p,