segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Movimento Rastafári

Marcelo Gil da Silva
Teólogo

Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN) Graduado



Hailé Selassié (Ras Tafari)
(imagem de pronounceitright.com)
Dentre os sons que escutamos no Brasil, há também o Reggae, que ganhou força pelas suas mensagens de paz e de denúncia aos sistemas de opressão. Um ritmo que teria nascido na Jamaica, possui suas raízes nas batidas africanas. No entanto, muito além da música, há um contexto político, cultural, religioso, social e, podemos dizer, até histórico por detrás do Reggae, incorporado no Movimento Rastafári.

Como já se esperaria, há esteriótipos a respeito dessa cultura rastafári, que para muitos, trata-se do afrodescendente americano, com a pele escura, cabelos trançados e Reggae. Porém, há um esclarecimento e umas curiosidades quando investigamos as origens.

A África é a terra natal dos pais dos afrodescendentes, sendo evidente uma identificação. O que surge no Jamaica é a expressão do que já estava acontecendo nas Américas Central e do Sul, a denúncia do sistema de opressão aos mais pobres. Isso foi sendo construído com ritmos caribenhos, porém resgatando as raízes africanas, com letras de paz e justiça, terminando no que conhecemos como Reggae.


Bob Marley (imagem de burbury.com.br)
Bob Marley, dentre outros músicos jamaicanos, teve muito de sua inspiração no Imperador Hailé Selassié (1892-1975), governante do Império Etíope de 1930 a 1974. Dentre muitos títulos, Selassié foi conhecido como Ras Tafari, na qual pela língua armaica, oficial da Etiópia, de origem semítica, significa "Príncipe da Paz", por sua vez um título do próprio Jesus Cristo, conforme o relato bíblico em Isaías 9:6. Além disso, o imperador se proclamava descendente do Rei Salomão, remetendo a textos bíblicos tanto em Reis como em Crônicas, na qual a Rainha de Sabá teria visitado o próprio Rei Salomão e, conforme o mito etíope, haveria um filho dos dois, na qual Ras Tafari é descendente.

Acredita-se que o antigo Reino de Sabá se localizava ao sul da península arábica, atual Yêmen, sendo que próximo da li, do outro lado do Mar Vermelho está a Etiópia. Curiosamente muitos africanos foram identificados como geneticamente judeus, inclusive desses dois países citados, tendo muitos deles emigrado para o atual Israel.


Imagem de guiadoestudante.abril.com.br

Pelo mito etíope, Hailé Selassié, o Ras Tafari, é considerado a encarnação de Jah, por sua vez, uma contração de Javeh ou Javé, que em hebraico é Yahweh, como descrito no texto bíblico em Êxodo 6:2, normalmente traduzido como Senhor, pois é a referência ao próprio Deus. Assim, pelos seguidores de Ras Tafari, ele é a encarnação do próprio Deus.

Ras Tafari, enquanto imperador da Etiópia ganha notoriedade pelos seus discursos, na qual denuncia as injustiças, o racismo e a guerra, como declara a formação de uma sociedade com os pilares na paz e na justiça. Um trecho de seu discurso numa conferência da Organização das Nações Unidas em 1963, serve de inspiração para Bob Marley compor "War" em 1976:

"Enquanto a filosofia que declara uma raça superior e outra inferior não for finalmente e permanentemente desacreditada e abandonada; enquanto não deixarem de existir cidadãos de primeira e segunda categoria de qualquer nação; enquanto a cor da pele de uma pessoa for mais importante que o brilho dos olhos; enquanto não forem garantidos a todos por igual os direitos humanos básicos, sem olhar as raças, até esse dia, os sonhos de paz duradoura, cidadania mundial e governo de uma moral internacional irão continuar a ser uma ilusão fugaz, a ser perseguida mas nunca alcançada.

E igualmente, enquanto os regimes infelizes e ignóbeis que suprimem os nossos irmãos, em condições subumanas, em Angola, Moçambique e na África do Sul não forem superados e destruídos, enquanto o fanatismo, os preconceitos, a malícia e os interesses desumanos não forem substituídos pela compreensão, tolerância e boa-vontade, enquanto todos os Africanos não se levantarem e falarem como seres livres, iguais aos olhos de todos os homens como são no Céu, até esse dia, o continente Africano não conhecerá a Paz. Nós, Africanos, iremos lutar, se necessário, e sabemos que iremos vencer, pois somos confiantes na vitória do bem sobre o mal" (ADEJUMOBI apud SELASSIÉ, 2007. p.154-155; tradução do autor).

O Movimento Rastafári acompanha os movimentos latino americanos no que se refere às lutas de classes, combate à pobreza e à opressão proporcionada pelo sistema neoliberal e, apesar de termos uma ascensão desses movimentos na segunda metade do século XX, vemos pela história uma série de movimentos similares, na qual muitos com uma proximidade ao aspecto religioso. Na prática, crenças a parte, a essência da luta por uma sociedade alicerçada na paz, fraternidade e justiça, vem ecoando desde a Antiguidade.

Ouça War (Guerra) de Bob Marley:





Referências

ADEJUMOBI, Saheed A. The History of Ethiopia. Westport: Greenwood Publishing Group, 2007, 219p.

AIRES. Lidiane. Conheça a história das comunidades judaicas negras da África. Guia do Estudante. Aventuras na História. [http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/conheca-historia-comunidades-judaicas-negras-africa-696519.shtml]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bible Hub. Disponível em [http://biblehub.com/interlinear/exodus/6-2.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

Bíblia Online. Nova Versão Internacional. Disponível em [https://www.bibliaonline.com.br]. Data de acesso: Data de Acesso: 17 Out 2016.

BÍBLIA, Português. Bíblia sagrada. Trad. João Ferreira de Almeida. Ver. Revista e Atualizada no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969.

FERNANDES, Cláudio. Rastafarianismo. História do Mundo. Disponível em [http://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/rastafarianismo.htm]. Data de Acesso: 17 Out 2016.

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